Linhas tortas...


Sobre as coisas que eu quase perdi

 

Não me canso de dizer que perco tudo. Minha distração sempre me faz esquecer a sombrinha na farmácia, perder a caneta preferida pela rua ou deixar a bolsa no guarda-volume.E é só horas depois , ao chegar em casa com a chave numerada na mão é que me dou conta de que minha distração ainda me levará à falência. O fato é que normalmente eu QUASE perco as coisas. Ou seja, eu as perco, mas acabo encontrando. Foi assim quando entraram na minha casa, levaram todas as roupas e eu as reencontrei horas depois no brechó. (É sério, juro. E não vá fazer a pergunta idiota: E aí, você teve que comprar tudo de novo? Sou distraída, não burra).

Lembrei de escrever um texto sobre minhas coisas quase perdidas depois de ter quase perdido o celular. Recuperá-lo (três dias depois de incomunicabilidade total) foi um momento sublime. Com direito a um halo de luz em volta dele quando a moça do supermercado me entregou o aparelho. Tive até a impressão de que tocou Carruagem de Fogo enquanto minha mão alcançava para pegá-lo, em câmera lenta.

Já perdi e reavi infinitas coisas. A mais desesperadora foi o gato, que se escondeu dentro da gaveta da cômoda por duas horas, deixando essa que vos fala em absoluto pânico. Até dentro do freezer eu procurei.

Costumo deixar as coisas em qualquer lugar. Uma vez peguei emprestado um livro de uma recém-amiga. O empréstimo, no caso de um livro, é um baita voto de confiança. Com o dito cujo na mão, passando em frente à Casa Lotérica, não resisti aos muitos zeros da na faixa da Mega Sena. Deixei no balcão o R$ 1 da aposta e o “Eva Luna”. Horas depois, refazendo o trajeto de volta, sem esperanças e já contabilizando os muitos reais que gastaria com o exemplar novo que teria que comprar, encontrei-o na mão de uma atendente sem graça. Ela já estava contando a obra como dela. Minha nova amiga nunca me perdoaria. Nem eu me perdoaria de deixar a Isabel Allende numa lotérica.

Esse deve ter sido o décimo-segundo livro que Quase perdi. O primeiro que eu eu tenho lembrança foi “Viagem pelo ombro de minha jaqueta”, sobre um garoto que encolhe, quando eu tinha uns oito anos. O livro era do acervo da Biblioteca Municipal e fazia parte da Coleção Vagalume, que eu, ratinha de biblioteca, devorei. O título não me atraiu de imediato, mas resolvi dar uma chance. Se era da Coleção, devia ser bom. Em três dias perdi a história do menino que se perdeu na jaqueta. Pânico na torre. Contei para minha mãe, levei uns pitos, me fiz de bocó e no dia da entrega liguei para a bibliotecária Marisa para renovar o empréstimo para mais uma semana.

- Tudo bem, Tati. Nessa você renova por telefone, mas na próxima você tem que trazer o livro aqui para renovar por mais uma semana.

Regra idiota. A semana passou voando e nada. Tomei coragem e liguei lá de novo, dessa vez para contar que tinha perdido. Muito simples, deveria comprar outro. Com o telefone de uma livraria que ficava longe à beça, calculei os gastos com o exemplar e o frete. Meu pai me mataria. Minha mãe sugeriu que apelássemos aos céus, literalmente.  Pediremos a Santo Antônio.

Neta de uma devota, pedi  à vó que rezasse o responsório pra mim. Contei a ela minuciosamente os detalhes do livro, capa e título e até um pedaço da história, que tinha começado a ler. Queria que ela passasse o recado pro Santo direitinho. Não podia correr o risco de receber as “Vinte mil léguas submarinas”, do Verne.

Imagina o que é o processo de mandar rezar um responsório para uma menina de oito anos desesperada. Vivi dois dias absolutamente tensos. Olhava para todos os lugares, buscando uma flechinha de neon escrito: “Seu livro está aqui. Ass: S.A.” Pensava tanto nisso que uma noite sonhei que o Santo vinha me entregar o livro em mãos.

No outro dia do sonho, minha mãe estava costurando no sofá da sala e deixou escorregar a tesoura para dentro do móvel. Obrigou-se a virar e rasgar o forro. Qual não foi sua surpresa quando viu em meio a moedas e alfinetes o livro da biblioteca. Fui entregar na mesma hora. A história nem era tão boa assim.



Escrito por tatilazz às 00h56
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Luzia

"Escrevo sobre isolamento e ternura, a perturbadora ambivalência nossa, frivolidade e covardia, às vezes a graça e o riso." (Lya Luft)

 

Luzia

 

Luzia tinha esse nome por causa da santa, padroeira da visão. Não que sua mãe fosse beata de igreja. Pelo contrário. A tia era prostituta e a mãe engravidou do caixa do supermercado em uma tarde nublada de outono, entre um turno e outro de trabalho. O pai nunca assumiu a filha e foi a tia, com a renda de um mês, que pagou todas as despesas do hospital e lhe comprou um enxoval cor-de-rosa. Disse apenas à irmã que colocasse um nome de santa na menina, para tentar evitar que ela tivesse um futuro sórdido. A tia riu quando foi convidada para ser madrinha, dizendo que o que ela poderia ensinar à sobrinha não poderia ser dito em voz alta na igreja. A menina terminou por não ser batizada e recebeu o nome semanas depois de nascer, quando então a mãe lembrou da medalha de Santa Luzia que seu pai carregava sempre com ele, desde que passou a sofrer com a visão. O avô havia sido da Marinha e sempre contava histórias mirabolantes, que mais pareciam delírios da imaginação de um pobre senil. Luzia ouvia tudo, sempre muito quieta. O avô lhe contou histórias até quase à beira da morte, quando a neta lhe guiava os passos, pois era a única que parecia enxergar o velho moribundo.

Desde cedo aprendeu mais a ver e ouvir do que falar e agir. Havia dias inteiros que a mãe passava sem notar sua presença, de tão apagada que se tornava sua existência. Luzia, calada, percebia detalhes que ninguém mais enxergava. Desde a tinta da parede da sala que começava a descascar, lá do alto, até as armações do filho do vizinho, que contrabandeava coisas no quintal.

Luzia ficou um bom tempo sem ir à escola, mas quando foi viu que a professora não suportava mais trabalhar e que sua letra na lousa era mais torta que as linhas do seu caderno. A garota perdeu o interesse pelos estudos e preferia olhar todos os detalhes escondidos na sala de aula e fora dela, como quando a professora esperava os alunos sair para o intervalo para ficar na sala chorando sem parar.

Mais tarde viu o avô morrer, desgostoso por não ter casado as filhas e bebendo garrafas e mais garrafas que empilhava atrás da cômoda.

Na paisagem múltipla que desfilava diante dos seus olhos, Luzia via o tronco desalinhado das árvores, as manchas na Lua, a revoada de pássaros negros e fotografava tudo na memória.

Ela cresceu assistindo à televisão, mas sabia que os programas mais emocionantes passavam além da sua janela, embora ninguém notasse.

Luzia via crianças que brincavam na piscina azul, tão azul que parecia o céu e assistia enquanto elas brigavam por um brinquedo qualquer.

Ela via o caseiro que varria com ar triste as flores e folhas que caíam das árvores e acompanhava o balé que elas faziam no ar, dispersando-se antes de serem recolhidas. A menina via a tia chegar batendo os dentes de frio, com a maquiagem borrada e as roupas curtas demais, trazendo consigo o raiar do dia.

Luzia via a mãe com o nariz vermelho de tanto coçar, reclamando da alergia que o pólen das flores lhe provocava. Mas o que Luzia mais gostava de ver era a paisagem proporcionada quando ela deitava de barriga para cima debaixo de uma grande árvore florida, e nessa posição via o galho das árvores e as flores impressos no firmamento.

E Luzia via as luzes de Natal, os fogos de artifício e recomeçava mais um ano a ver e rever todas as coisas. Tinha como um estigma a capacidade e a condenação de observar tudo à sua volta, sem conseguir transmitir com fidelidade tudo o que via. Seu olhar era diferente, porque seus olhos e ela própria pareciam diferentes do restante do mundo.

 



Escrito por tatilazz às 22h37
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