A maldição da bisteca
Reza que acaba logo. (popular)
Aconteceu há pouco mais de um mês, na fila do açougue. Dia de compra do mês.
- Que carne vamos comprar?
Entre as opções, bife, costela, frango...
Foi aí que surgiu a idéia infame.
- E se a gente comprasse bisteca de porco?
- Pode ser...
É isso que até hoje a gente não entende. Nenhuma das duas é fã de bisteca, a tal da bisteca não estava em promoção, por que raios comprar bisteca?
- Meio quilo, por favor. Estava feita a cagada.
Ao chegar em casa, dividimos a aquisição em pacotinhos. Até hoje, se as duas forem separada em salas diferentes para testemunharmos, vamos dizer o mesmo. Não eram muitos pacotinhos.
Mas aí vem a explicação.
As bistecas se reproduzem no congelador.
No primeiro dia, foi divertido.
- Nossa, porco, faz tanto tempo que eu não como. Bom, né?
No segundo dia de cardápio suíno, já estávamos meio chateadas com a idéia.
No terceiro, (semanas depois), torcíamos o nariz.
As possibilidades se esgotavam. Fritas, assadas, com limão, com molho... De todas as formas, deixava a desejar.
Depois do milagre da reprodução das bistecas, descongelá-las pela manhã era um pesar. Antes de ir para o trabalho, nós duas nos olhávamos e dizíamos amargamente.
- Até o almoço.
Daí surgiam as desculpas. Uma mensagem no celular, com uma desculpa para a outra de que não poderia almoçar em casa. Uma ligação...
- Ahm... Não vou poder ir comer em casa porque tenho que ... entrevistar o Alfredo.
- Que Alfredo?
- (tu tu tu)
E lá ia a outra, sozinha, degustar a iguaria. Queimada, normalmente, de raiva.
Até que um dia não teve mais desculpas. O último pacote, com três pedaços, foi retirado do congelador. Ansiedade de ambas as partes. Nossa e da bisteca. O último almoço em companhia merecia um ritual. A carne foi temperada um dia antes, e foi acompanhada de purê de batata, beterraba, arroz e feijão. Tudo para amenizar o gosto antes já tão conhecido. Cada uma comeu um. O último restou solitário, no prato. Mas não poderíamos deixá-lo em vantagem. Deveríamos vencê-lo. Não tive dúvidas. Comi-o, sem fome, sem vontade. Afinal, ele poderia procriar-se, até o próximo almoço.
Escrito por tatilazz às 23h18
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|